As pessoas (ok, ok, a Oprah e o Dr. Phil) sempre falam da honestidade como sendo algo indispensável para um bom relacionamento entre indivíduos. Mas o que elas esquecem - ou simplesmente ignoram - é que a honestidade nunca vem sozinha. Junto dela sempre há filões, que se grudam feito parasitas e distorcem o sentido original da palavra, como o mundialmente conhecido erro honesto.
O erro honesto é aquele deslize que você comete sem querer, sem intenção de causar danos ou malefício a outrem. A diferença entre o erro honesto e o erro convencional é que o primeiro se assemelha mais a um mal-entendido inocente. O erro honesto é a área VIP das mancadas.
Não me levem a mal, honestidade é uma coisa boa. Só que é tipo o anel de O Senhor dos Anéis. Dependendo de como a usa, você pode acabar perdendo o controle.
Uma vez reencontrei um antigo casinho, já não via o rapaz havia alguns anos. Estava toda boba, nervosa, falante, até que ele virou de costas e eu me deparei com a tanajura imensa que tinha tomado o lugar da bundinha proporcional que ele costumava ter. Quer dizer, aquela bunda tinha se tornado algo tão absurdamente gigantesco que eu nem posso dizer que me deparei com ela. Ela que se deparou comigo. Estava viva!
E o mais estranho é que ele não parecia ter engordado. O rosto estava normal, os braços estavam normais, a barriga, tudo. Exceto o traseiro. É como se, de alguma forma, todos os hambúrgueres com batata frita e Coca-Cola que ele havia ingerido durante aqueles anos tivessem ido parar direto na bunda, sem escalas. E eu não sabia o que dizer. Eu mal conseguia falar. Só ficava pensando em como aquela bunda desafiava todas as leis da natureza. "Você está diferente", ele disse, "Está mais bonita". Eu sorri e mudei de assunto, evitando responder: "Você também. O que porra aconteceu com a sua bunda???".
Repito, honestidade é uma coisa boa. Mas é como a pílula vermelha de Matrix. Nem sempre as pessoas estão prontas para ela. E, às vezes, por mais que elas queiram ser honestas, acabam optando pela pílula azul (metaforicamente, tá, ninguém aqui está falando de Viagra).
Por exemplo, suponha que um rapaz esteja num encontro com uma moça e mencione, num dado momento, um episódio envolvendo sua ex. Se ele perguntar: "Você se importa que eu fale da minha ex?" e ela responder que não, é muito provável que seja mentira. Honestamente, ela gostaria de não se importar, mas o que ela realmente está pensando é algo muito próximo de:
"Old Macdonald had a farm, ee-I-ee-I-o
And on that farm he had some chicks, ee-I-ee-I-o"...
Ela não vai mudar de assunto de cara. Antes, vai testar seus limites, tentar transcender o desconforto (como ela faz quando come pimenta), enquanto continua a cantarolar mentalmente:
"With a cluck, cluck here, a cluck, cluck there
Loud as they could be"...
Ser honesto com os outros não é uma tarefa fácil. Implica em riscos e em exposição. Mas talvez seja ainda mais difícil ser honesto consigo mesmo. Deve ser por isso que ainda existem tantos rapazes por aí com mais de trinta, morando com a mãe, ouvindo a coletânea dos maiores sucessos da Bette Midler enquanto compram no Mercado Livre um box com todos os filmes já estrelados pela Barbra Streisand.
"Hooonestyyy is such a lonely word
Everyone is so untruuue"...